quinta-feira, 7 de maio de 2009

La Jeunesse du Monde


Ils aimeraient nous monter les uns contre les autres,Mais si Dieu le veut bien, ce sera les gens simples contre les ordres,Enfants du siècle, avançons le poing levé,Jeunesse et peuple du Tiers monde nous marcherons à tes côtés,Ta lutte est la nôtre, tout comme notre lutte est la tienne,Justice et liberté pour tous les habitants de la terre,Sèche tes larmes et relève la tête on est pas die,Le combat nous attend, en toi sera le premier champ de bataille,RESISTANCE...On a dit NON !On a le nombre, jeunesse du monde !Ce sera plus jamais sans nous, dignité et conscience,On est des milliards à vouloir faire tourner la roue dans l'autre sens,Des pays oubliés, jusqu'aux oubliés de nos pays,Marginal des pays riches, qu'attends-tu pour désobéir ?Mon rap prône l'insurrection car plus question de laisser faire,La lutte est nécessaire, en d'autres termes : ils veulent nous baiser frère...Contre leur dictature mondiale, c'est ensemble compagnon,Que s'amorce la mondialisation de la rébellion !On a tous le même ennemi, plein de sang sur ses écus,Qui persécute à tout va, les oubliés et les exclus,Jeunesse du Tiers Monde, nous partageons ta douleur,Vois-tu l'arc-en-ciel au loin, c'est la rébellion et ses couleurs,Rajoute la tienne, là où est écrit en gros,JUSTICE ET LIBERTE POUR TOUS, A Nous De Cramer Leur Enclos !Refrain :Résistance, à l'heure du néo-libéralisme et de ses guerres concrètes,Résistance, à l'heure du néo-colonialisme et de ses nouvelles conquêtes,Résistance, à l'heure du néo-libéralisme et de ses guerres concrètes,Résistance, à l'heure du néo-colonialisme et de ses nouvelles conquêtes,On est tous menacé, le système capitaliste,N'est qu'un prédateur, regarde dans le monde ce qu'il réalise,Des génocides lorsque des peuples ne veulent pas quitter leurs terres,Pour les vendre à des grosses compagnies, grand frère des militaires,Chantage gouvernemental, en Occident ils nous bernent le mental,Avec leur obsession du rentable !Ne connaissent pas l'amour, juste l'argent avec un grand « A »,Faites pas la paix mais la guerre c'est prolifique pour la vente d'armes,Ils ne voient que leurs avantages, compagnon faut qu'on s'active,Regarde leurs nuages, il en tombe du sang radioactif,Leur sincérité est ironique,Considéré « jetable » si tu es inutile à leur croissance économique,La IVeme guerre mondiale enclenchée ne soit pas triste,L'espoir existe, regarde le noble mouvement zapatiste,Pour toutes les résistances, compagnons combattons,Tous les oubliés du monde c'est ensemble que nous vaincrons...Contre leur dictature mondiale, c'est ensemble compagnon,Que s'amorce la mondialisation de la rébellion !On a tous le même ennemi, plein de sang sur ses écus,Qui persécute à tout va, les oubliés et les exclus,Jeunesse du Tiers Monde, nous partageons ta douleur,Vois-tu l'arc-en-ciel au loin, c'est la rébellion et ses couleurs,Rajoute la tienne, là où est écrit en gros,JUSTICE ET LIBERTE POUR TOUS, A Nous De Cramer Leur Enclos !Refrain :Résistance, à l'heure du néo-libéralisme et de ses guerres concrètes,Résistance, à l'heure du néo-colonialisme et de ses nouvelles conquêtes,Résistance, à l'heure du néo-libéralisme et de ses guerres concrètes,Résistance, à l'heure du néo-colonialisme et de ses nouvelles conquêtes,C'est la loi des grandes entreprises, leur monde une caricature,Mondialisation libérale, économie et dictature,Le Tiers Monde ligoté, par tout traité de traître seulement,Pendant que le FMI impose son programme d'ajustement,Ca privatise à tout va, entrepreneurs politiciens,Dévaluent l'entreprise d'Etat pour la vendre aux copains,Ils se refont le monde entre eux, sans même se cacher,Ils s'foutent des peuples et des cultures, pour eux le monde n'est qu'un grand marché,Un grand monopoly, qui finira en monopole,Si leurs manigances t'as compris, alors méfie toi d'Interpol,Les Droits de l'Homme comme les contes de fée c'est loin,Comme Babylone tu fermes ta gueule et obéit c'est l'OMC qui fait ses lois ! Tiens !Nous sommes que des statistiques ou des gentils esclaves,Fais gaffe à l'accident trop fort et trop vrai tu t'exclames,Arrive le plus grand génocide, où le plus grand des désordres,Quand une civilisation se dresse, et veut exterminer les autres !Contre leur dictature mondiale, c'est ensemble compagnon,Que s'amorce la mondialisation de la rébellion !On a tous le même ennemi, plein de sang sur ses écus,Qui persécute à tout va, les oubliés et les exclus,Jeunesse du Tiers Monde, nous partageons ta douleur,Vois-tu l'arc-en-ciel au loin, c'est la rébellion et ses couleurs,Rajoute la tienne, là où est écrit en gros,JUSTICE ET LIBERTE POUR TOUS, A Nous De Cramer Leur Enclos !Babylone Babylone, entends-tu la colère monte,Les oubliés de l'Occident et les oubliés du Tiers Monde,Babylone Babylone, tu nous a dit c'est Marche ou Crève,Alors on marche ensemble contre toi pour faire valoir nos rêves,Babylone Babylone, tu voudrais nous voir notre déclin,Qu'nos idéaux partent en éclats, mais méfie-toi car on est plein,Babylone Babylone, ta fin est proche,Compte sur nous pour danser sur tes cendres quand ton règne finira en feu !

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A lição d’Os Músicos de Bremen




A fabulosa obra dos alemães irmãos Grimm vai subir novamente ao palco do Auditório Municipal, num remake extraordinário d’A Jangada. Concebida no século XIX, Os Músicos de Bremen é uma peça com uma lição de vida para os nossos tempos. É uma bofetada de luva branca para aqueles que escorraçam os debilitados e os incapazes, e desprezam os indefesos e os idosos, remetendo entes queridos e vidas fatigadas para o esquecimento e para degredo.
Pequenos e graúdos apreciam esta encenação fabulada com a mesma intensidade e atenção. De facto, Os Músicos de Bremen na versão d’A Jangada é uma peça perfeita para a família, que é uma instituição cada vez mais enfraquecida pelas ânsias da ganância e pelas ganas do egoísmo.
Da encenação à cenografia e figurinos, passando pelo desenho de luz e pela produção, rasgados elogios podiam aqui ser lavrados acerca desta peça de teatro musical. Vou-me ficar pela abordagem à performance do quarteto de actores: Alberto Fernandes (o cão) transpira versatilidade e merece os parabéns pela magistral orquestração (a sequência de percussão com que a peça encerra é magistral); os consagrados Luiz Oliveira (o gato) e Patrícia Ferreira (o galo) são assombrosos; e por fim, o neófito Vítor Fernandes (o burro) é primoroso no seu papel e para ele se augura já uma carreira notável nas artes do palco.

Zé do Telhado, o Repartidor Público

CAMBATXILONDA, A ÚLTIMA MORADA

Por Manuel Esteves, «o Nosso Manel»

Para toda a Família 3485, em especial para o 2.º Grupo de Combate, com um agradecimento ao camarada e amigo Carlos Alberto Santos (médico), pelo empenho dedicado à Família 3485 (sem o seu empenho, nunca poderia ter o prazer de vos legar estas pobres palavras). À memória do Vinhas (enfermeiro), meu camarada de grupo e de caserna, há muito que partiu para a viagem sem regresso (onde estiveres, recebe o meu abraço).

Se algum dia eu te esquecer cambatxilonda
Que o castigo seja ver-te novamente
Nem que seja com um simples olhar
À distância de uma vida!...
E se por ventura ao lerem estas pequenas memórias
Sentirem no mais íntimo de vós algo de novo
Não tenhais medo de seguir o coração!...
Mesmo que ele vos leve pelo caminho das lágrimas!...

Foi num dia de sol do mês de Julho de 1973, que nos embrenhamos na picada que leva ao Cacolo e entre o Nandonge e a baixa do Cuilo, paramos para assentar arraiais na Nova Cambatxilonda, erigida no planalto que se eleva desde a linha de água (com fama de jacarés), e a parte sul da velha aldeia.
Feito o reconhecimento, e depois de dar as boas vindas à entidade oficial local, Soba-Mutambuleno, começaram os preparativos para instalar o segundo grupo de combate, filho de uma família fraterna e temerária, a quem um dia alguém ousou dizer: “ELES DIRÃO DE NÓS!” e disseram sem dúvida no fim da nossa missão, que foi nesta sanzala e noutras onde estiveram outros filhos da mesma família, que todos com espírito de sacrifício e empenho, souberam honrar a sigla que carregaram nos mais belos anos da sua juventude, e que por isso marcaram a diferença.
Mas, desviando-me desse trilho mais sentimental, direcciono as minhas memórias para a parte mais técnica, que consiste na montagem do acampamento.
Assim, feito o levantamento topográfico pelo grupo de comando, começamos a construção do edifício (caserna) que nos havia de albergar por alguns meses. O projecto desenvolvia-se em U, e a sua estrutura assentava em finos toros de madeira (matéria-prima que tínhamos à mão com abundância).
O alçado principal destinava-se ao maior número de pessoas, melhor dizendo “caserna”. O alçado lateral direito, visto do Torreão da água era a mansão dos graduados alferes e furriéis milicianos, e o alçado lateral esquerdo, visto do mesmo ângulo, era o posto de rádio, a enfermaria, e o repouso desses dois operadores. De referir que as paredes a tardoz de todos os alçados, compostas por paus, lianas e capim enlaçado, desenvolviam-se em empena cega (não existiam quaisquer tipos de vãos) por uma questão de segurança.
Mais tarde haveríamos de mudar de instalações para uma casa já construída no local e com projecto arrojado para aquela localidade. Tratava-se de um edifício, que segundo os rumores da época, seria para albergar a O.P.V.D.C.A.
O outro edifício existente e do mesmo naipe de construção, era a enfermaria que dava apoio à população local e à população do Nandonge.
Ora, acabado de vos mostrar o projecto fiel do local e já com as telas finais à vista, parto para o tema fulcral que nos levou ao Cambatxilonda: A PSICO.
Assim, as linhas orientadoras para esta missão, partiam, obviamente do topo da hierarquia do grupo, Alferes António Boavida (com a sua postura altiva e que de vez em quando mostrava o seu sentido de humor ao chamar ao Lopes de Terras do Bouro – o Bixarro), coadjuvado pelos dedicados seguidores Furriel Gonçalves, (moreno, sotaque algarvio e aquele jeito desajeitado que punha no andar e no correr), o Furriel Ferreirinha, (sotaque alfacinha, brincalhão e sempre com um ar de gingão) e o Furriel Oliveira, (pele clara, que carregava uma manta de cabelo ao peito e que esperava sempre com uma paciência paternal, para ser o último a usar o chuveiro e que era da terra do Rafael Bordalo Pinheiro). Era sem dúvida uma equipa de comando de excelência. Convosco aprendi a crescer.
Ora, formado o grupo para receber instruções e as distribuições de tarefas, ficou assim ordenado: o Silva, o Meirinhos e o Brás ficavam responsáveis pelas equipas que iriam chapear as palhotas da nova sanzala e outras tarefas afins. O Vinhas ficava com a tarefa de curar as maleitas, o Esteves, além de fazer o SITREP diário na área das transmissões, ficava com o pelouro do ensino e o Costa, atarracado e sempre de mal com o mundo, seria o cozinheiro, mais tarde substituído pelo cabo Brás.
Vivíamos os dias intensamente e com o fervor de quem tem vinte anos.
A escola absorvia-me boa parte do meu dia, mas ainda sobrava tempo para de vez em quando procurar refúgio para baixar a tensão numa pequena palhota (três passos ao quadrado), desgarrada e cravada na franja do talude que dava para Cambatxilonda antiga. Aí esperava-me o remédio para a hipertensão: mulher de cerca de trinta anos de idade, alta, magra, peitos já tombados pela idade e com o rosto que denotava tristeza. Ao lusco-fusco era a hora por mim marcada para o encontro e ao sentir-me por perto, a pobre mulher arrotava duas a três vezes e ao entrar na porta meia aberta, murmurava sempre as mesmas palavras “Chindelo Canapemexinge”. Depois, depois era África em todo o seu esplendor.
E se mais Leste houvesse mais se conquistava.
Ao desenterrar no Planalto do passado as minhas memórias, isto que hoje vos dou é uma simples amostra dos meus passos nessas paragens.
Preparai-vos. E como dizia o mestre das palavras Luís Vaz de Camões, numa das suas canções: “A Água do Mar em tão pequeno vaso”. Nem eu delicadezas vou contando com o gosto do louvor mas explicando puras verdade já por mim passadas. Um abraço do camarada – amigo e sempre leal, Manuel Esteves.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sem eira nem beira, by Xutos & Pontapés

Anda tudo do avessoNesta rua que atravessoDão milhões a quem os temAos outros um passou - bemNão consigo perceberQuem é que nos quer tramarEnganarDespedirE ainda se ficam a rirEu quero acreditarQue esta merda vai mudarE espero vir a terUma vida bem melhorMas se eu nada fizerIsto nunca vai mudarConseguirEncontrarMais força para lutar...(Refrão)Senhor engenheiroDê-me um pouco de atençãoHá dez anos que estou presoHá trinta que sou ladrãoNão tenho eira nem beiraMas ainda consigo verQuem anda na roubalheiraE quem me anda a comerÉ difícil ser honestoÉ difícil de engolirQuem não tem nada vai presoQuem tem muito fica a rirAinda espero ver alguémAssumir que já andouA roubarA enganaro povo que acreditouConseguir encontrar mais força para lutarMais força para lutarConseguir encontrar mais força para lutarMais força para lutar...(Refrão)Senhor engenheiroDê-me um pouco de atençãoHá dez anos que estou presoHá trinta que sou ladrãoNão tenho eira nem beiraMas ainda consigo verQuem anda na roubalheiraE quem me anda a foderHá dez anos que estou presoHá trinta que sou ladrãoMas eu sou um homem honestoSó errei na profissão

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Internacional




De pé, ó vitimas da fome! De pé, famélicos da terra! Da ideia a chama já consome A crosta bruta que a soterra. Cortai o mal bem pelo fundo! De pé, de pé, não mais senhores! Se nada somos neste mundo, Sejamos tudo, oh produtores!
Bem unido façamos, Nesta luta final, Uma terra sem amos A Internacional
Senhores, patrões, chefes supremos, Nada esperamos de nenhum! Sejamos nós que conquistemos A terra mãe livre e comum! Para não ter protestos vãos, Para sair desse antro estreito, Façamos nós por nossas mãos Tudo o que a nós diz respeito!
Bem unido façamos, Nesta luta final, Uma terra sem amos A Internacional
Crime de rico a lei cobre, O Estado esmaga o oprimido. Não há direitos para o pobre, Ao rico tudo é permitido. À opressão não mais sujeitos! Somos iguais todos os seres. Não mais deveres sem direitos, Não mais direitos sem deveres!
Bem unido façamos, Nesta luta final, Uma terra sem amos A Internacional
Abomináveis na grandeza, Os reis da mina e da fornalha Edificaram a riqueza Sobre o suor de quem trabalha! Todo o produto de quem sua A corja rica o recolheu. Querendo que ela o restitua, O povo só quer o que é seu!
Bem unido façamos, Nesta luta final, Uma terra sem amos A Internacional
Nós fomos de fumo embriagados, Paz entre nós, guerra aos senhores! Façamos greve de soldados! Somos irmãos, trabalhadores! Se a raça vil, cheia de galas, Nos quer à força canibais, Logo verá que as nossas balas São para os nossos generais!
Bem unido façamos, Nesta luta final, Uma terra sem amos A Internacional
Pois somos do povo os activos Trabalhador forte e fecundo. Pertence a Terra aos produtivos; Ó parasitas deixai o mundo Ó parasitas que te nutres Do nosso sangue a gotejar, Se nos faltarem os abutres Não deixa o sol de fulgurar!
Bem unido façamos, Nesta luta final, Uma terra sem amos A Internacional !


Letra de Eugène Pottier (1871)

música de Pièrre Degeyter (1888)

Philantropocus


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

The Sandpiper to bring you joy


Ela tinha seis anos e conhecia numa praia perto de onde eu vivo. Quando entro em depressão vou até essa praia, que fica a 3 ou quatro milhas da minha casa. Ela estava a construir um castelo ou algo parecido, na areia. Tinha olhos azuis como o mar. “Olá”, disse ela. Eu respondi sem grande interesse em manter conversa nem reparando verdadeiramente nela.
“Estou a construir na areia”, disse ela. “Sim... e o que é?”, perguntei eu, fastidioso. “Não sei... só sei que gosto de mexer na areia”.
Sentir a areia era bom, de facto. Descalcei os sapatos e chapinhei os pés na areia.
Um sandpiper aterrou ali perto.
"Ele é uma alegria" disse a criança.
“É o quê?...”
"É uma alegria. A minha mãe diz que os sandpipers trazem alegria.
O pássaro foi descendo a praia, cantarolando uma melodia. “Adeus alegria”, murmurei eu para mim mesmo, “olá sofrimento”, e virei-me para seguir caminho. Eu estava mesmo em depressão. A minha vida parecia desequilibrada e descontrolada.
“Como se chama?”, perguntou a menina.
"Robert," respondi, "Robert Peterson."
"Eu chamo-me Wendy... Tenho seis anos."
"Olá, Wendy."
Ela gracejou "Você é engraçado!”.
Apesar do meu mau humor consegui sorrir, mas continuei a caminhar. Ela ficou onde estava, a cantarolar.
"Volte sempre, Mr. P," disse ela. "Voltaremos a ter outro dia de alegria”.
Depois de um dia terrível no trabalho cheguei a casa e pensei que encontrar um sandpiper talvez me alegrasse. Ali fui, procurando serenidade e sossego. Lá estava novamente a Wendy.
"Olá, Mr. P," cumprimentou ela. "Quer jogar?"
"Que jogo?" perguntei.
"Não sei. Escolha você."
"Pode ser charadas?" perguntei sarcasticamente..
“Eu não sei o que isso é”
“Então vamos só andar na areia”, disse eu.
Olhando atentamente para ela reparei na delicadeza da sua pele e de como esta criança parecia frágil. "Onde moras?", perguntei.
"Ali adiante". Ela apontou para uma casa de praia ali perto. Estranho, pensei eu, viver ali no inverno... "Onde é a tua escola?”, questionei.
"Eu não vou á escola. A minha mãe disse que estamos de férias”, respondeu.Ela foi falando, na maior parte do tempo coisas de criança, criancices. Na maior parte do tempo eu não estava com o pensamento ali, mas nos assuntos que me atormentavam e obcecavam. Quando nos despedimos, Wendy disse que tinha sido mais um dia de alegria.
Sentindo-me surpreendentemente melhor, eu concordei e disse que sim.
Três semanas depois eu corri para aquela praia em estado de quase pânico. Eu não estava nem sequer com vontade de cumprimentar a pequena Wendy. Queria estar sozinho, mais nada. Pareceu-me ter visto uma senhora no alpendre da casa de Wendy. Seria a sua mãe. A pequena apareceu de uma duna da praia. “Olha, se não te importas, hoje prefiro estar sozinho”, disse-lhe eu, de forma áspera e seca. Reparei que ela estava mais pálida e frágil que nunca. "Porquê?" perguntou ela.
Eu virei-me na sua direcção e respondi abruptamente: "Porque a minha mãe morreu!”.
Meu Deus, porque estava eu a dizer aquilo à criança?
"Oh," murmurou ela, "então hoje é um dia mau..."
"Sim," disparei eu, "e ontem, e antes de ontem e o dia anterior... Hei, deixa-me sozinho!" E desatei a correr para bem longe dela.
Cerca de um mês depois disso, sentindo-me culpado e envergonhado pela minha atitude para com aquela criança, fui até á praia. Tinha vindo a admitir que sentia a falta daquela inocente mas afável criança. Nesse dia ela não estava na praia. Dirigi-me à casa dela. Uma senhora jovem abriu-me a porta. “Olá, sou Robert Peterson. Notei a ausência da sua filha e pensei vir perguntar por ela”.
"Oh, o senhor é que é o Mr. Peterson, entre, por favor. A Wendy falou muito de si. Peço desculpa se permiti que ela o chateasse. Se ela o incomodou, por favor aceite as minhas desculpas.
"Não, de maneira nenhuma, ela é uma criança encantadora", disse eu, surpreedndido pelo facto de realmente pensar aquilo.
"Wendy morreu na semana passada, Mr. Peterson. Ela tinha leucemia. Talvez ela não lhe tenha dito...”
Fiquei atónito, perplexo, e senti um calafrio horrível.
"Ela adorava esta praia. Quando ela disse que queria vir para cá, não lhe podíamos dizer que não. Ela parecia melhorar muito aqui e tinha o que ela dizia serem dias felizes. Mas... nas últimas semanas ela desfaleceu muito..."
A sua voz foi-se engasgando, soluçando, Calou-se. De seguida levantou-se dizendo “Ela deixou algo para si. Vou buscar”.
Eu estava literalmente aparvalhado, paralisado. Não conseguia dizer o que quer que fosse. Sentia um nó na garganta e outro no estômago...
Ela entregou-me um envelope onde estava escrito simplesmente "MR. P" em caligrafia de criança. Dentro estava um desenho colorido, feito com lápis – uma praia amarela, um mar azul, e um pássaro castanho. Em baixo estava uma frase: “A SANDPIPER TO BRING YOU JOY” (um sandpiper para lhe trazer alegria).
As lágrimas soltaram-se desmesuradamente pela minha cara e o meu coração falou depois de tanto tempo esquecido de amar. “Desculpe! Desculpe! Sinto tanto, tanto...”, repliquei eu, vezes sem conta àquela senhora em frente de mim, que me abraçou naquela angústia e desespero. Chorámos até nos despedirmos.
O desenho está emoldurado num quadro no meu gabinete. Nele estão aquelas seis palavras, uma para cada ano de vida que aquela criança teve. Uma criança que, na sua linguagem, me falou de harmonia, coragem e amor incondicional. Uma criança com olhos azuis como o mar e cabelo cor da areia, que me ensinou a dádiva do amor.

Robert Peterson, in Morning Musings, de 19 de Fevereiro de 2004

It's Probably Me