quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

The Sandpiper to bring you joy


Ela tinha seis anos e conhecia numa praia perto de onde eu vivo. Quando entro em depressão vou até essa praia, que fica a 3 ou quatro milhas da minha casa. Ela estava a construir um castelo ou algo parecido, na areia. Tinha olhos azuis como o mar. “Olá”, disse ela. Eu respondi sem grande interesse em manter conversa nem reparando verdadeiramente nela.
“Estou a construir na areia”, disse ela. “Sim... e o que é?”, perguntei eu, fastidioso. “Não sei... só sei que gosto de mexer na areia”.
Sentir a areia era bom, de facto. Descalcei os sapatos e chapinhei os pés na areia.
Um sandpiper aterrou ali perto.
"Ele é uma alegria" disse a criança.
“É o quê?...”
"É uma alegria. A minha mãe diz que os sandpipers trazem alegria.
O pássaro foi descendo a praia, cantarolando uma melodia. “Adeus alegria”, murmurei eu para mim mesmo, “olá sofrimento”, e virei-me para seguir caminho. Eu estava mesmo em depressão. A minha vida parecia desequilibrada e descontrolada.
“Como se chama?”, perguntou a menina.
"Robert," respondi, "Robert Peterson."
"Eu chamo-me Wendy... Tenho seis anos."
"Olá, Wendy."
Ela gracejou "Você é engraçado!”.
Apesar do meu mau humor consegui sorrir, mas continuei a caminhar. Ela ficou onde estava, a cantarolar.
"Volte sempre, Mr. P," disse ela. "Voltaremos a ter outro dia de alegria”.
Depois de um dia terrível no trabalho cheguei a casa e pensei que encontrar um sandpiper talvez me alegrasse. Ali fui, procurando serenidade e sossego. Lá estava novamente a Wendy.
"Olá, Mr. P," cumprimentou ela. "Quer jogar?"
"Que jogo?" perguntei.
"Não sei. Escolha você."
"Pode ser charadas?" perguntei sarcasticamente..
“Eu não sei o que isso é”
“Então vamos só andar na areia”, disse eu.
Olhando atentamente para ela reparei na delicadeza da sua pele e de como esta criança parecia frágil. "Onde moras?", perguntei.
"Ali adiante". Ela apontou para uma casa de praia ali perto. Estranho, pensei eu, viver ali no inverno... "Onde é a tua escola?”, questionei.
"Eu não vou á escola. A minha mãe disse que estamos de férias”, respondeu.Ela foi falando, na maior parte do tempo coisas de criança, criancices. Na maior parte do tempo eu não estava com o pensamento ali, mas nos assuntos que me atormentavam e obcecavam. Quando nos despedimos, Wendy disse que tinha sido mais um dia de alegria.
Sentindo-me surpreendentemente melhor, eu concordei e disse que sim.
Três semanas depois eu corri para aquela praia em estado de quase pânico. Eu não estava nem sequer com vontade de cumprimentar a pequena Wendy. Queria estar sozinho, mais nada. Pareceu-me ter visto uma senhora no alpendre da casa de Wendy. Seria a sua mãe. A pequena apareceu de uma duna da praia. “Olha, se não te importas, hoje prefiro estar sozinho”, disse-lhe eu, de forma áspera e seca. Reparei que ela estava mais pálida e frágil que nunca. "Porquê?" perguntou ela.
Eu virei-me na sua direcção e respondi abruptamente: "Porque a minha mãe morreu!”.
Meu Deus, porque estava eu a dizer aquilo à criança?
"Oh," murmurou ela, "então hoje é um dia mau..."
"Sim," disparei eu, "e ontem, e antes de ontem e o dia anterior... Hei, deixa-me sozinho!" E desatei a correr para bem longe dela.
Cerca de um mês depois disso, sentindo-me culpado e envergonhado pela minha atitude para com aquela criança, fui até á praia. Tinha vindo a admitir que sentia a falta daquela inocente mas afável criança. Nesse dia ela não estava na praia. Dirigi-me à casa dela. Uma senhora jovem abriu-me a porta. “Olá, sou Robert Peterson. Notei a ausência da sua filha e pensei vir perguntar por ela”.
"Oh, o senhor é que é o Mr. Peterson, entre, por favor. A Wendy falou muito de si. Peço desculpa se permiti que ela o chateasse. Se ela o incomodou, por favor aceite as minhas desculpas.
"Não, de maneira nenhuma, ela é uma criança encantadora", disse eu, surpreedndido pelo facto de realmente pensar aquilo.
"Wendy morreu na semana passada, Mr. Peterson. Ela tinha leucemia. Talvez ela não lhe tenha dito...”
Fiquei atónito, perplexo, e senti um calafrio horrível.
"Ela adorava esta praia. Quando ela disse que queria vir para cá, não lhe podíamos dizer que não. Ela parecia melhorar muito aqui e tinha o que ela dizia serem dias felizes. Mas... nas últimas semanas ela desfaleceu muito..."
A sua voz foi-se engasgando, soluçando, Calou-se. De seguida levantou-se dizendo “Ela deixou algo para si. Vou buscar”.
Eu estava literalmente aparvalhado, paralisado. Não conseguia dizer o que quer que fosse. Sentia um nó na garganta e outro no estômago...
Ela entregou-me um envelope onde estava escrito simplesmente "MR. P" em caligrafia de criança. Dentro estava um desenho colorido, feito com lápis – uma praia amarela, um mar azul, e um pássaro castanho. Em baixo estava uma frase: “A SANDPIPER TO BRING YOU JOY” (um sandpiper para lhe trazer alegria).
As lágrimas soltaram-se desmesuradamente pela minha cara e o meu coração falou depois de tanto tempo esquecido de amar. “Desculpe! Desculpe! Sinto tanto, tanto...”, repliquei eu, vezes sem conta àquela senhora em frente de mim, que me abraçou naquela angústia e desespero. Chorámos até nos despedirmos.
O desenho está emoldurado num quadro no meu gabinete. Nele estão aquelas seis palavras, uma para cada ano de vida que aquela criança teve. Uma criança que, na sua linguagem, me falou de harmonia, coragem e amor incondicional. Uma criança com olhos azuis como o mar e cabelo cor da areia, que me ensinou a dádiva do amor.

Robert Peterson, in Morning Musings, de 19 de Fevereiro de 2004

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