quinta-feira, 18 de novembro de 2010

CAÇA AO LOBO

Não se fala de outra coisa na parvónia: os lancinantes uivos que preencheram a noite. O director do pasquim jurou na tasca que vai imprimir em letras garrafais: “Lobisomens voltam a atacar”. Desta vez não será sensacionalista! Aqueles gritos fantasmagóricos fizeram estarrecer as crianças e tremer os adultos. Há muitas luas-anos que não se ouviam os uivos dilacerantes da pobre besta. “Vem da casa abandonada! Vamos todos, vamos!” Abriu a caça ao lobo. Magotes de homens sedentos de sangue e de vingança cega acorreram com archotes, lanternas, caçadeiras e espingardas. Abriu a caça ao lobo. O comandante da Guarda juntou-se aos desordeiros. Abriu a caça ao lobo. Triste ser enraivecido que nem animal será. Abriu a caça ao lobo. Os animais não se abatem a si próprios. Abriu a caça ao lobo. Os cães a ganir de medo farejam o ar e partem em debandada. Junto da casa a horda de injustíssimos vigilantes era já reduzida. Fechou a caça ao lobo. Um opel manta a dar quanto tinha saiu disparado das traseiras do velho casario. Borracha queimada e benzina esfumada poluíram as fuças dos trastes perseguidores. Estava aberta a caça ao lobo. Balas cruzaram os céus. Em vão. Os uivos ouviam-se agora ao longe. Fechou a caça ao lobo. Para a cidade foi o lobo, sossegar-se.

C. Richter_ 18_11_2010

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