segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um pouco de alegria

Há 20 anos eu era taxista. Era uma vida de cow-boy, sem a prisão de paredes nem a vigilância de patrão. Depressa compreendi que era também uma profissão de grande aprendizagem de vida.
Eu fazia o turno da noite e talvez por isso o meu táxi tornava-se frequentemente num confessionário.
Passageiros sentavam-se atrás, em total anonimato e falavam-me das suas vidas. Encontrei gente cujas vidas me espantaram, outros desgostaram-me, outros entristeceram-me, etc.
Mas nenhuma vida me tocou mais do que aquela que encontrei numa noite de Agosto.
Respondi a uma chamada da central para ir buscar alguém a uma zona recatada da cidade. O mais habitual era tratar-se de alguém vindo de uma festa, ou alguém que tivesse saído de casa após uma discussão ou alguém indo para um turno de trabalho, etc.
Cheguei junto do edifício às 2:30 da madrugada. Uma só luz se via, no rés-do-chão. Nenhum cliente nas proximidades. Nestas circunstâncias, qualquer taxista buzinava uma ou duas vezes, esperava um minuto e partiria se ninguém aparecesse. Eu não o fazia. Sabia o quão importante era um táxi para quem precisa dele.
A não ser quando a situação me parecesse perigosa, eu ia sempre á porta chamar o passageiro. Desta vez pensei o mesmo; podia tratar-se de alguém que precisasse de ajuda. Bati à porta."Só um momento," respondeu uma amigável voz idosa. Ouvi algo ser arrastado pelo chão e após uma pausa longa, a porta abriu-se. Uma senhora, de estatura baixa, aparentando 80 anos, apareceu diante de mim. Vestia como se vivesse nos anos 40, Pela porta entreaberta consegui ver de relance que o apartamento parecia desabitado. Tudo estava coberto por lençóis.
“Pode levar a mala para o carro, por favor”, pediu a senhora.
Assim fiz, após o que regressei para ajudar a senhora. Ela amparou-se no meu braço e dirigimo-nos para o táxi. Ela agradeceu repetidas vezes o que chamou de “amabilidade”.
"Não tem de quê" dizia eu, "estou só a tratar a senhora como gostava que tratassem a minha mãe, por exemplo”.
Quando entramos no táxi ela deu-me um papel com um endereço e disse: “Podemos ir pela baixa da cidade?”.
“Não é o caminho mais próximo”, respondi.
“Oh, eu não tenho pressa. Estou a caminho do asilo”, justificou a senhora.
Olhei pelo retrovisor e vi que os seus olhos reluziam.
"Não tenho família e os médicos dizem que já não me resta muito tempo de vida”, disse ela.
Cuidadosamente desliguei o taxímetro e perguntei: “Que caminho devo então seguir?”.
Durante duas horas conduzi a senhora pela cidade. Mostrou-me o edifício onde trabalhou como operadora de elevador. Passamos no bairro onde vivera após o casamento.
Por vezes pedia para abrandar, em certos locais, e contemplava certos edifícios ou ruas, sem nada dizer.
Quando o clarão da aurora rompia na manhã, ela disse: “Estou cansada, podemos ir”.
Conduzi então para a morada que me tinha dado. Era um edifício do tipo de uma casa de convalescença, com acesso de carro por debaixo do pórtico da entrada. Dois funcionários aproximaram-se, para ajudar a senhora. Parecia que estavam à sua espera. Fui ao porta-bagagens do táxi buscar a mala e levei-a à entrada, onde a senhora já estava, numa cadeira de rodas.
“Quanto lhe devo”, perguntou ela, ao mesmo tempo que deitava a mão à carteira. “Nada”, disse eu,
“O jovem tem que ganhar a vida”, ripostou ela.
“Há mais passageiros”, retorqui e, num gesto instintivo, baixei-me e dei-lhe um abraço.
“Obrigado. Você deu a uma velha mulher um pequeno momento de alegria. Foi muito gentil”.
Dirigi-me para o táxi e atrás de mim a porta grande do edifício bateu. Era o som de uma vida a fechar-se.
Nesse turno não fiz outro serviço. Fiquei pensativo, nostálgico, vagueando sem destino nas ruas daquela manhã citadina. E se aquela mulher tivesse tido o azar de apanhar um taxista carrancudo e hostil?
Aquela acção foi uma das coisas mais importantes que fiz na minha vida. De facto, estamos condicionados a pensar que as grandes acções da nossa vida estão ligadas a grandes momentos, a coisas gigantes e inolvidáveis...
Mas, por vezes, grandes momentos apanham-nos desprevenidos porque passam despercebidos...

Esta é uma história verdadeira de um anónimo americano, traduzida de "Chiken soup for the soul", de T. H Scott

Sem comentários:

It's Probably Me